Arquivo de Agosto de 2007
Mais interpretação, menos decoreba
Finalmente os responsáveis pela elaboração das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) se convenceram de que a capacidade de decorar tabelas periódicas e fórmulas da física não mede o potencial intelectual de ninguém. No exame aplicado no último final de semana foi exigido dos cerca de 3,5 milhões de alunos inscritos mais interpretação e menos conhecimento especifico, estimulando o raciocínio lógico. Com isso, pode-se avaliar melhor os alunos de um País tão desigual como o Brasil, independente do conteúdo programático aplicado por cada escola, assumindo o desafio de se conviver com a diferença. Por sinal, este foi o tema da redação do Enem. Nota 10 para o MEC.
Nunca é tarde para estudar
Em Washington, no Kansas, uma americana tornou-se, recentemente, símbolo de uma antiga máxima que, nesta era do conhecimento, não poderia soar mais atual: nunca é tarde demais para aprender. Nola Ochs virou centro das atenções no mundo inteiro ao receber o diploma universitário, aos 95 anos. A mais idosa formanda de que se tem notícia colou grau no curso de licenciatura de estudos gerais com ênfase em história, pela Universidade Fort Hays de Kansas, depois de passar um ano no câmpus convivendo com outros 4.500 estudantes – a maioria, certamente, com menos de um terço da sua idade. Na cerimônia de entrega de títulos, foi aplaudida de pé pelos colegas. Uma justa homenagem.
Tendo em vista a atual situação demográfica mundial, a história de Nola deveria causar mais admiração que espanto. A cada ano, cresce a expectativa de vida das pessoas em todo o mundo. Em 34 anos, a população brasileira praticamente dobrou em relação aos 90 milhões de habitantes da década de 1970 e, somente entre 2000 e 2004, aumentou em 10 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2050, seremos 259,8 milhões de brasileiros e nossa expectativa de vida, ao nascer, será de 81,3 anos, a mesma dos japoneses hoje. Os números são transparentes: o envelhecimento da população está se acentuando – e rapidamente.
Essa mudança demográfica começa a ser percebida também no âmbito social, com mais profundidade nos países desenvolvidos. No Japão, onde a velhice está associada à sabedoria, pessoas com mais de 65 anos, consideradas idosas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), desenvolvem atividades intelectuais e produtivas sem despertar os olhares preconceituosos dos que estão ao redor. E mais: o governo japonês, inclusive, tem adotado medidas para encorajar os idosos a continuar integrando a força de trabalho. Segundo noticiou recentemente a BBC Brasil, a idéia é “vê-los como um recurso e não um encargo – mão-de-obra valiosa ao invés de pessoas que precisam apenas de apoio e cuidados”.
No Brasil, a realidade é outra. O País ainda se acostuma com a idéia de, em pouco tempo, ter uma população idosa mais equilibrada em relação ao percentual de jovens. Recorrendo novamente aos números do IBGE: em 2050, os dois grupos devem se igualar em 18% – em 2000, a faixa de zero a 14 anos representava 30% da população, enquanto os maiores de 65 anos eram apenas 5%. Indiferente a essa realidade, a sociedade brasileira insiste em supervalorizar a força da juventude enquanto, displicentemente, despreza a experiência dos mais velhos. É como se, num balanço contábil, os jovens compusessem o lado ativo – os bens e direitos – e os idosos, o passivo – as obrigações.
Não requer muito esforço, porém, concluir que há algo errado nessa contabilidade. Os japoneses provaram isso. Mesmo sem incentivos, os idosos brasileiros também têm demonstrado, com criatividade, que o potencial produtivo e intelectual não diminui com a idade. Por necessidade ou opção, muitos têm retornado ao mercado de trabalho e ingressado na universidade, mostrando-se aptos a dividir espaço, harmonicamente, com os mais jovens. Pesquisa recente da Fundação Perseu Abramo comprova essa realidade: no momento do levantamento, apenas 2% dos idosos estavam estudando – contra 22% da população entre 16 e 59 -, mas, se pudessem escolher livremente, 44% gostariam de fazer algum curso.
A pesquisa também mostra um aspecto preocupante que atinge os brasileiros com mais de 60 anos. Segundo o levantamento, quase metade da população naquela faixa etária é analfabeta. Além do desafio da reinserção, em muitos casos, há, portanto, uma etapa ainda mais árdua a ser superada: a da inserção. Vencer essas duas barreiras requer mudanças tanto no campo de políticas públicas de inclusão do idoso quanto na percepção subjetiva acerca desse segmento. Passa, especialmente, pelo resgate da auto-estima da pessoa idosa. Com permissão do poeta Mário Quintana: “Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida – a verdadeira – em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira.”
Bolsa Família x Bolsa para doutores
O incentivo à produção cientifica é um fator indispensável para o desenvolvimento dos setores produtivos e acadêmicos. No entanto esta premissa parece ainda não ter sido compreendida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com título de doutor Honoris Causa em diversas universidades, sem nunca ter sentado na banca de uma universidade, o chefe do Executivo colocou no mesmo patamar o programa assistencialista Bolsa-Família e as bolsas de US$ 2 mil pagas através do Capes aos pesquisadores que vão fazer doutorado no Exterior. Durante discurso esta semana em Minas Gerais, o presidente considerou um “contra-senso” estes mesmos pesquisadores beneficiados com o incentivo criticarem o Bolsa-Família. No entanto, são dois tipos de políticas que não podem ser comparadas. O investimento na formação de conhecimento é a única forma de alavancar a economia, transformando-nos em uma nação desenvolvida, sem essa legião de miseráveis que engrossa a fila do Bolsa-Família. No entanto, enquanto permanecer pensamentos como os verbalizados por Lula, as bolsas assistencialistas terão que ser mantidas para oferecer apoio àqueles que não têm condições mínimas de sustento.
Corrida pela inovação
O Brasil acelerou o passo na corrida pela inovação e, agora, lidera a pauta do investimento mundial em pesquisa e desenvolvimento. Revela-nos que o país teria registrado, entre 2004 e 2006, uma expansão de 36,6 por cento no volume de recursos empregados em pesquisa.
O desempenho brasileiro no período supera o de gigantes como a China, os Estados Unidos e o Japão, países cujo atual nível de desenvolvimento em muito se deve ao fator inovação. Nada mal para a 10ª maior economia do mundo.
O resultado do estudo é animador, mas nada de euforia. Uma leitura mais cuidadosa dos números da pesquisa traz à tona outra constatação. Apesar do avanço em relação aos anos anteriores, em termos absolutos, o Brasil está longe de assumir a liderança no ranking da inovação. Os valores gastos, segundo Giget, teriam chegado aos 32,62 bilhões de dólares no ano passado. Já a China investiu mais de quatro vezes esse montante, alcançando 140 bilhões de dólares em 2006. O Japão e os Estados Unidos também superam, com larga vantagem, o desempenho brasileiro.
Os números não deixam dúvidas de que, para se aproximar dos que estão em situação mais confortável, será necessário ampliar ainda mais os investimentos na área. Não significa, entretanto, que o país está à margem da inovação: apenas precisa acelerar o passo. É como se, em uma corrida de automóveis, o que estivesse na segunda colocação se deslocasse de maneira mais veloz que o seu oponente à frente. Separado do líder por centenas de quilômetros, para alcançá-lo antes do fim da competição, o veículo mais ágil teria que pisar ainda mais fundo no acelerador.
Como a corrida pela inovação não terminou, há tempo para o Brasil melhorar a sua posição. Uma estratégia eficiente para potencializar os esforços em pesquisa e desenvolvimento é investir em educação, como fazem os países que estão na dianteira. É preciso formar mais pós-graduados em áreas técnicas que trabalhem com inovação eagreguem valor à produção local. Só não se pode perder de vista que esses futuros profissionais passam primeiro pela graduação, o que reforça a necessidade de implementação de medidas de inclusão de jovens no ensino superior.
A China tem hoje cerca de 13 milhões de estudantes nas universidades, muitos dos quais, dentro de pouco tempo, estarão à frente das pesquisas para a criação ou reinvenção de materiais e processos inovadores. No Brasil, há apenas 4,5 milhões de universitários, aproximadamente 10,9 por cento dos brasileiros entre 18 e 24 anos. Desses, pelo menos 73 por cento estão em instituições de ensino superior privadas. Além do desafio da inclusão de jovens na universidade, primeiro passo para incrementar a produção nacional de conhecimento e inovação, os números revelam a participação determinante do setor privado para minimizar o problema.
O fomento da pesquisa no país depende da atuação integrada dos diversos setores da sociedade. Tanto a iniciativa privada precisa convencer-se de que, para garantir a competitividade frente a um mercado global, será preciso investir mais maciçamente em pesquisa e desenvolvimento, como o governo não pode se contentar com pouco. Iniciativas como o Programa Universidade para Todos (ProUni), do governo federal, demonstram os resultados da parceria público-privada. Ao oferecer vagas em instituições particulares, dando-lhes isenção de impostos, o governo também faz um bom negócio: paga bem menos que os 10.000 dólares gastos por ano se oferecesse uma vaga em instituição federal, sem prejuízos à qualidade da educação. Sobra mais dinheiro para investir em inovação.