Meritocracia educacional

Comparar a escola pública com uma empresa privada, no Brasil, é o mesmo que cometer um pecado capital. Aqui, persiste a velha cultura que abomina a introdução de elementos ligados ao mundo dos negócios nas esferas públicas - sobretudo, quando se trata de educação. Nossos diretores de escola, em regra, estão longe de exercer a função de gestores, e nossos professores, de serem tratados como profissionais do conhecimento. CEO na Secretaria de Educação da cidade de Nova Iorque, o americano Eric Nadelstern, em entrevista à revista Veja, faz comentário, bastante aplicável à realidade brasileira, que sintetiza os impactos dessa mentalidade: “Temos uma escola de século 21 com a cara do século 19. Precisamos de coisa melhor”.
Não requer muito esforço verificar, na prática, como se manifesta esse cenário de atraso nas nossas escolas. Salas de aula vazias, grande número de alunos em idade avançada para a classe, instalações precárias e falta de materiais didáticos são indícios de uma realidade na qual os diretores parecem mais preocupados em atender às burocracias do sistema educacional que em otimizar recursos para obter melhores resultados. Os professores terminam por reproduzir essa lógica e, freqüentemente, concentram-se apenas em transferir informações para seus alunos, em vez de se fixarem na obtenção de melhores níveis de aprendizagem. Os prejuízos traduzem-se em elevados índices de evasão e repetência, e em péssimos desempenhos escolares.
Evidentemente, o problema não é exclusividade do Brasil. As escolas americanas também sofrem com o apego aos antigos modelos educacionais. Em Nova Iorque, entretanto, o governo tem combatido essa tendência com ousadia. Lá, Eric Nadelstern - autor da frase citada no início deste artigo - comanda uma das reformas mais radicais já feitas visando às escolas públicas. Desde que o empresário Michael Bloomberg assumiu a prefeitura daquela cidade, em 2002, coube ao CEO - cargo mais usual entre os executivos de empresas multinacionais que entre representantes do poder público - a missão de implantar nas escolas um modelo assentado na competição e na recompensa com base no mérito: a meritocracia.
O modelo não é tão complicado quanto parece. Fundamenta-se, essencialmente, na implantação de um sistema de gestão voltado para resultados, como ocorre no ambiente empresarial. Diretores de escolas que conseguem atingir as metas estipuladas - redução dos índices de evasão e repetência, desempenho favorável dos alunos nas avaliações - recebem incentivos como forma de reconhecimento. Também lhes é conferida autonomia para repartir o bônus, conforme os critérios que julgarem convenientes, permitindo que os professores com desempenhos satisfatórios também sejam premiados. É, portanto, uma alternativa para mobilizar, concretamente, todos os níveis que compõem a escola para o alcance da excelência na educação.
Longe de ser uma solução mágica, a implantação da meritocracia no ambiente escolar brasileiro demonstra ser apenas uma opção viável à superação de velhos problemas educacionais. Embora o governo federal já tenha começado a esboçar reações - por meio do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) da Educação -, estabelecer metas aos municípios e atribuir recompensas aos que as atingirem é apenas o começo. Será preciso mais: conduzir essa nova dinâmica, efetivamente, para dentro das salas de aula. A mudança exige instrumentos eficazes de mensuração da qualidade de alunos, professores e diretores para, por meio da concessão de incentivos baseados no mérito, pôr as escolas brasileiras no rumo da modernidade. Como nas melhores empresas do mundo.

Publicado por Janguie Diniz em dezembro 19, 2007

Um esforço pela eficiência na Educação

Venho defendendo em meus escritos a implementação nas escolas de um modelo assentado na competição e na recompensa com base no mérito: a meritocracia. A estratégia utilizada em grandes empresas para garantir serviços de qualidade será justamente o recurso do Governo de Pernambuco para melhorar os indicadores educacionais no Estado, que são os piores do País, conforme revelou os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (Pisa). De acordo com o novo modelo de gestão divulgado na última semana pelo governador Eduardo Campos, os funcionários das escolas estaduais que apresentarem melhorias nas taxas de repetência, evasão e freqüência terão direito a um 14º salário. A iniciativa deve ser ovacionada por revelar um esforço dos dirigentes públicos em elevar a qualidade da educação. No entanto, faz-se urgente a criação de mecânicos fiscalizadores para que a iniciativa não acabe por estimular a aprovação em massa de alunos em troca do benefício financeiro, mesmo que eles não tenham atingido o coeficiente de aprendizado necessário.

Publicado por Janguie Diniz em

Educação e crescimento econômico

Difusão da educação universitária significa crescimento econômico. Não há como subverter essa lógica em plena sociedade do conhecimento, considerada o estágio mais avançado do capitalismo. Sem a participação de mão-de-obra especializada na força de trabalho, fica difícil para um país obter a produtividade necessária para competir no mercado global. Diante da atual configuração, nunca foi tão crucial investir no setor educacional. A comparação entre o gasto do Brasil com educação e o de outros países, entretanto, revela um cenário preocupante. O país está na contramão das exigências da globalização.

De 34 países analisados por um estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado recentemente, o nosso é o que apresenta menor investimento por estudante: US$ 1.303 por ano. Os 30 países da OCDE gastam, em média, US$ 7.527, quase seis vezes mais que o Brasil. No país que mais gasta com educação, Luxemburgo, este valor chega a US$ 13.453. Na prática, o pífio investimento do país em educação se traduz em atraso, não apenas social, mas também para o setor produtivo. Temos apenas 9% de técnicos e profissionais com curso superior no mercado de trabalho.

Quando a referência é o Produto Interno Bruto (PIB), a situação se agrava. Segundo o relatório da OCDE, no Brasil, o total do PIB investido em educação chega a 3,9%, ficando à frente apenas da Rússia (3,6%) e da Grécia (3,4%). A porcentagem do PIB gasta em educação demonstra a prioridade que um determinado país dá ao setor em relação a outros gastos de seu orçamento. Com base nos dados, não fica difícil concluir que a educação no País ainda está longe de receber tratamento estratégico, como nos Estados Unidos, onde os gastos com educação correspondem a 7,4% do PIB, quase o dobro.

As conseqüências desse quadro são avassaladoras. Além de afetar a distribuição de renda e o crescimento pessoal dos indivíduos, as deficiências educacionais que atingem o Brasil também provocam desemprego e perda de competitividade do País em relação a economias com as quais disputa o mercado global. Em um país com 8 milhões de desempregados, muitas companhias ficam meses com vagas em aberto pela incapacidade de encontrar trabalhadores de bom nível, o que é um cruel contra-senso. A baixa qualificação também afasta investimentos e impede a adoção de novas tecnologias.

Na falta de investimento público suficiente, a iniciativa privada funciona como uma forte aliada no combate às dificuldades educacionais. A Vale é um exemplo. A empresa, cujo negócio é extrair minério e transportá-lo até seus consumidores, forma 200 condutores de locomotiva por ano. A Tecnisa, empresa paulista dedicada à construção de prédios, gasta todo ano 150 mil reais para ensinar centenas de operários a ler, escrever e ter noções básicas de informática. São ações que demonstram como a educação é estratégica para essas empresas. Os resultados se evidenciam nos negócios.

O economista americano Edward Glaeser, professor da Universidade de Harvard, em reportagem publicada pela Revista Exame, sintetizou, com propriedade, o problema que o país enfrenta quanto ao setor educacional: “A educação é um dos motores do crescimento, e no Brasil esse motor funciona mal.” Para fazer esse motor trabalhar e crescer em uma economia globalizada, cada vez mais dependente de conhecimento e de inovação, serão necessários esforços conjuntos, envolvendo governo e iniciativa privada. Sobretudo, será preciso que a educação efetive-se como prioridade absoluta. Do contrário, o País terá que continuar pagando caro pela ignorância – com juros e correção monetária.

Publicado por Janguie Diniz em dezembro 10, 2007

Educação reprovada

Os resultados do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos, divulgado esta semana pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), confirmou o que já sabíamos: o ensino básico brasileiro está entre os piores do mundo. A pesquisa mostrou que estamos “reprovados” em matemática, ciência e leitura. Entre as conclusões do estudo está a de que o Brasil é o país que registra a maior desigualdade entre a rede pública e a privada. No entanto, apesar dos estudantes de escolas públicas terem o desempenho pior, os matriculados na rede particular também não obtiveram boas notas nas disciplinas avaliadas. Entre as causas para o vergonhoso resultado podemos identificar a falta de professores em ciências e matemática, principalmente no ensino médio. Com base na baixa demanda por cursos de licenciatura nas áreas, as previsões não são das melhores. Na relação de concorrência divulgada este ano pela Comissão de Vestibular da Universidade Federal de Pernambuco, por exemplo, os cursos de matemática, química, física e ciências biológicas foram os menos procurados. Enquanto não houver um programa de incentivo à docência continuaremos com estes índices pífios em educação.

Publicado por Janguie Diniz em dezembro 7, 2007


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