Arquivo de Fev de 2010

Os anseios da população brasileira

Recente pesquisa do Instituto Sensus revela as contradições e os desejos da população brasileira. Sempre desconfiei das contradições presentes em nossa sociedade. Em particular, quanto ao nível de satisfação dos brasileiros com o governo, com a vida e com os serviços públicos oferecidos pelo estado.

A pesquisa Sensus mostra que 48% dos entrevistados estão satisfeitos com o país; 52,8% declaram ter orgulho de serem brasileiros. Estes percentuais mostram que o brasileiro está satisfeito com a sua vida e com o Brasil. Certamente, esta satisfação advém da situação econômica do país. Saliento que o sentimento de bem-estar econômico dos brasileiros permite que 81,7% dos entrevistados aprovem o desempenho do presidente Lula à frente do governo.

Ao analisar as notar atribuídas pela opinião pública a alguns serviços essenciais do estado, constato a contradição. A educação pública obtém nota média de 6,5. O transporte, 5,8. A rede pública de saúde, 5,1. As estradas 5,1. E a segurança pública, 4,9%. Setores fundamentais do governo receberam notas reduzidas. Neste sentido, indago: quais as razões da satisfação dos brasileiros?

O estado existe para prover bens e serviços públicos. Estes, necessariamente, devem ser oferecidos com qualidade para a população. O poder estatal se relaciona diretamente com os indivíduos, já que ele, como já dito, oferece bens e serviços públicos essenciais. A pesquisa mostra que diversos bens públicos não recebem notas satisfatórias da opinião pública. Portanto, isto é uma contradição! Pois não encontro razões objetivas, considerando os resultados da pesquisa, que construam a satisfação dos brasileiros.

Destaco que o Congresso Nacional, o serviço público, as Polícias e o governo são instituições em que os brasileiros nem sempre confiam. Elas obtêm índices reduzidos de confiança dos pesquisados. Então, questiono, novamente: o que motiva a satisfação dos brasileiros? Diante do nível de confiança dos brasileiros com as instituições, tenho a hipótese de que o brasileiro está descrente da democracia.

Violência/criminalidade, drogas e desemprego são os principais problemas do país, segundo a pesquisa Sensus. A redução dos índices de criminalidade e o combate ao tráfico de drogas dependem do governo. Contudo, parte dos brasileiros não confia no governo. Então, indago: os brasileiros acreditam que a segurança pública será mais eficiente no médio prazo? A geração de empregos, em certa medida, depende de políticas governamentais. Inclusive da redução de impostos. Mas parcela dos brasileiros não acredita no governo.

Além disto, os brasileiros consideram os impostos, no caso a alta carga tributária, como um dos principais problemas do país. Lembrando: a redução dos impostos depende do governo. Saliento que 37,8% dos entrevistados consideram os serviços públicos ruins diante da alta carga tributária existente no país.

Friso, ademais, que 69,4% dos brasileiros consideram que a corrupção está aumentando no país. Os fatos trazidos pela imprensa mostram práticas de corrupção presentes no poder público. Então, os indivíduos, isto é uma hipótese, consideram que a corrupção está aumentando no poder estatal brasileiro. Resultado coerente diante da reduzida confiança que os brasileiros têm com as instituições do estado.

A leitura atenta da pesquisa revela não só contradições. Mostra também os desejos da população brasileira. O brasileiro deseja um estado menos corrupto e mais eficiente no provimento de bens e serviços públicos. Ele deseja um país melhor. É que o brasileiro, em sua essência, é otimista. Eu sou brasileiro.

Eleições e promessas

A sociedade brasileira mudou nestes últimos 10 anos. A mudança foi proporcionada por diversos motivos, dentre estes: a educação e o avanço da economia. Mais indivíduos educados. Mais pessoas informadas. Mais pessoas com capacidade de aproveitar as ofertas de emprego. Crescimento econômico. Mais oferta de trabalho. Menos pessoas dependentes do estado, especialmente do clientelismo político.

As mudanças na sociedade brasileira, inclusive com a ampliação do mercado interno de consumo, possibilitaram que os eleitores passassem a cobrar ações concretas dos gestores públicos. Ações que tivessem impactos, preferencialmente a curto prazo, na vida deles. Neste caso, o eleitor exige um estado eficiente. E só os representantes, numa democracia representativa, junto com a burocracia estatal, podem tornar o estado eficiente.

Dick Morris, ex-assessor de Bill Clinton, em seu livro El nuevo príncipe, argumenta que em virtude da mudança da sociedade americana, novos conteúdos foram inseridos no cotidiano das campanhas políticas. De acordo com Morris, o eleitor americano mudou. É exigente. Em razão disto, os políticos precisaram trazer propostas para as campanhas eleitorais, e mostrar que elas têm conteúdo e podem ser aplicadas.

Constatei no livro de Dick Morris que o eleitor procura a razão de votar num dado candidato. O eleitor também deseja que o estado, por meio da iniciativa do ator político, faça com que ele tenha alguma utilidade. Por isto, existe a necessidade dos candidatos de criarem uma agenda de propostas para as campanhas.

Ocorrerão eleições no Brasil este ano. Certamente, em razão da mudança ocorrida na sociedade brasileira, os candidatos a presidente e aos governos dos estados apresentarão propostas na campanha eleitoral. Contudo, estas propostas precisam ser concretas, isto é: caberem no orçamento do poder estatal. Sem recursos, é impossível que o estado seja eficiente.

Desconfio que, em razão da agenda fiscal e da estabilidade econômica fazerem parte da agenda pública brasileira, muitos eleitores saibam que o estado não pode fazer tudo, já que ele tem limitações para tal. Portanto, o candidato não pode prometer o impossível, pois o eleitor ficará desconfiado.

Destaco o fato de que os órgãos de comunicação no Brasil, por conta da sua pluralidade, cobram dos candidatos. Então, isto faz com que a opinião pública fique atenta às promessas deles. Colunistas políticos e acadêmicos, inclusive, utilizam-se dos espaços midiáticos para opinarem sobre a credibilidade das propostas.

Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos em virtude de ter incentivado a esperança nos americanos. Ao se deparar com a realidade da economia americana e com a complexidade da sua proposta para a reforma da saúde, ele descobriu que nem tudo o que foi prometido poderia ser cumprido. Consequência: Obama perdeu popularidade e apoio junto aos americanos. Talvez Obama tenha prometido demais. Ou não avaliou corretamente a capacidade do estado americano e a própria realidade.

Os candidatos à presidência do Brasil e aos governos estaduais devem ficar atentos à situação de Obama junto à opinião pública americana. Assim como a mudança positiva que ocorre na sociedade brasileira. Portanto, espero que os candidatos apresentem propostas factíveis ao eleitorado, assuma o compromisso de cumpri-las, e, claro, ao serem eleitos, as cumpram.