Arquivo de Maio de 2008

Administração e desenvolvimento econômico II

A quarta falsa premissa afirma: “A administração é uma ‘ciência” ou pelo menos uma “disciplina”, ao que ele contesta, afirmando: “a administração terá de ser considerada tanto uma ‘ciência’ como uma “humanidade”. A falsa se baseia em duas proposições. A primeira é a de que a administração é tão independente de valores culturais e crenças individuais quanto as operações elementares da aritmética, as leis da física ou as tabelas de tensão dos engenheiros. A outra, a de que toda administração está sendo executada dentro de um único ambiente nacional e implantada numa única cultura nacional; esta circunstância a um único código jurídico e é parte de uma única economia nacional. Eram tão óbvias para Taylor, nos Estados Unidos, quanto para Fayol, na França. Mas, para ele, mesmo que haja instrumentos e técnicas de administração; haja teorias e princípios de administração e talvez uma disciplina universal de administração ou ainda uma função genérica mundial que chamamos de administração – que tente a mesma finalidade em toda parte e qualquer sociedade desenvolvida -, a administração também é uma cultura e um sistema de valores e crenças. Também é o meio pelo qual uma determinada sociedade torna produtivos seus próprios valores e crenças. A administração pode muito bem ser considerada a ponte entre uma civilização que se está tornando rapidamente mundial e uma cultura que manifesta tradições, valores, crenças e patrimônios divergentes. A administração precisa tornar-se o instrumento pela qual a diversidade cultural possa atender às finalidades comuns da humanidade. Como ciência da humanidade, a administração é tanto um enunciado de verificações que podem ser postas à prova e confirma objetivamente como um sistema de crenças e experiências.
Por fim e mais uma vez Peter Drucker inverte o enunciado, para a quinta premissa – “a administração é resultado do desenvolvimento econômico”- e afirma: “o desenvolvimento econômico e social resulta da administração”.
A primeira premissa sustenta que a administração é resultado e não causa; um atendimento de necessidades e não uma criadora de oportunidades. Peter Drucker afirma: pode-se dizer, sem muito exagero de simplificação, que não existem países subdesenvolvidos. Existem apenas países subadministrados. O Japão de cem anos atrás era um país subdesenvolvido por todas as medidas materiais. Mas muito rapidamente constituiu uma administração de grande competência e, na verdade, excelente. No prazo de 25 anos, o Japão da Era do Meidji se havia tornado uma país desenvolvido, aliás, em alguns aspectos, tais como a alfabetização, o mais altamente desenvolvido de todos os países. Toda a nossa experiência em desenvolvimento econômico prova que a administração é o principal propulsor e que o desenvolvimento é uma conseqüência.
Que lições podemos extrair deste mestre já falecido da Graduate School of Busines Administration da Universidade de Nova York? Para nós as premissas segundo a quais ôas instituições, inclusive as dos negócios, são responsáveis pela qualidade de vidaö e que ôa administração terá de ser considerada tanto uma ciência como uma humanidadeö.
No tocante à primeira premissa, inclui ele as instituições de ensino no contexto da responsabilidade com a vida humana. É o que temos tentado fazer na Faculdade Maurício de Nassau, sem falsa modéstia, ao articular o processo de ensino e de aprendizagem aos projetos de pesquisa e à produção acadêmica devidamente conectados com as comunidades carentes, a fim de melhorar a qualidade de vida daqueles que as habitam.
Ao elevar a administração à categoria de uma humanidade recomenda que se preservem os valores culturais e as tradições, uma vez que, ôsem funcionar o patrimônio cultural específico de um povo, não pode ocorrer o desenvolvimento social e econômicoö. Neste aspecto, inúmeros são os projetos voltados para a preservação, a valorização e o desenvolvimento da nossa arte e da nossa cultura implementados pela Faculdade Maurício de Nassau. Um exemplo, para ilustrar essa minha exposição: o Instituto do Frevo que vem recebendo aplausos dos estudiosos, da crítica e, sobretudo, dos que fazem o carnaval. Temos realizado permanentemente uma série de entrevistas, debates, encontros e registros de toda historiografia e memória do carnaval de Pernambuco, instituição idealizada e dirigida pelo nosso professor e Superintendente Acadêmico, Dr. Inácio Feitosa.
Já para os especialistas no assunto, arrisco-me a identificar aquilo que há de mais fascinante no discurso de Peter Drucker. A importância dada às teorias organizacionais comparadas às grandes descobertas científicas do século XX e, sobretudo, o contexto da administração elevada a uma dimensão cultural, enquanto sistemas de crenças e de valores.
Neste aspecto ele é contundente: “A administração pode muito bem ser considerada a ponte entre uma civilização que se está tornando rapidamente mundial e uma cultura que manifesta tradições valores, crenças e patrimônios divergentes”.
E para nós, o que encontrar nas lições deste mestre: “O desenvolvimento econômico resulta da administração”.
Vejam que lição para todos nós! Não podemos esquecer o legado das teorias da administração e das suas proposições atuais, desde que elejam, como premissa, a valorização das tradições culturais de uma sociedade de um povo.
Por fim, um ponto de convergência entre os nossos objetivos: “O que é administração e o que os administradores fazem tornar-se-ão, portanto, – e apropriadamente – cada vez mais uma questão de interesse público e não um assunto reservado aos ‘peritos’. A administração se preocupará cada vez mais com a manifestação de crenças e valores básicos tanto quanto com a consecução de resultados mensuráveis. Defenderá cada vez mais a qualidade da vida de uma sociedade tanto quanto seu padrão de vida”.

Educação básica é mais urgente

Investir na educação superior é pressuposto para o crescimento. Países como a Coréia e a Finlândia, que já alcançaram os 90% de matrículas no ensino superior, segundo a Unesco ou como a Suécia, a Dinamarca, os Estados Unidos e a Nova Zelândia, que superaram os 80%, têm plena consciência disso. Com seus 12% de matrículas de jovens no ensino superior, segundo o Ministério da Educação, o Brasil está distante de atingir patamar semelhante ao dessas nações. E mais grave: aqui, há um fator que emperra sobremaneira as perspectivas de melhoria do ensino superior – a baixa qualidade da educação básica.

Segundo levantamento da equipe técnica do movimento “Todos pela Educação” (TPE), cerca de 800 mil brasileiros de 7 a 14 anos ainda não têm acesso à escola; a cada dois minutos, um estudante de 15 a 19 anos abandona o colégio; menos de 5% das crianças da 5ª série do ensino fundamental estão plenamente alfabetizadas -nove em cada 10 alunos da 8ª série não sabem que 9 equivale a 90% de 10. Números verdadeiramente alarmantes. Enquanto isso, o Brasil aplica metade da verba investida pelo México na educação fundamental, e cinco vezes menos que a Coréia do Sul.

O país estancou em uma fase há muito superada por aqueles que almejam avançar, e o impacto desse atraso na economia é perceptível. Mesmo quanto aos cargos com baixa exigência de escolarização, o mercado já sofre com a dificuldade de encontrar pessoas aptas para preenchê-los. Diante da crescente necessidade de adaptações e mudanças que se verificam no mundo do trabalho, as empresas não admitem mais operários que não saibam, no mínimo, ler e escrever ou fazer operações matemáticas simples, como somar e subtrair. Isso em um país onde a taxa de desemprego passou dos 9%, apenas no ano passado.

Sem profissionais qualificados, o país perde importantes oportunidades de produzir e, conseqüentemente, de crescer. Mas como partir para um investimento estratégico na educação superior se faltam estudantes habilitados a ingressar na universidade? É verdade que os paises em desenvolvimento têm concentrado esforços na ampliação da taxa de matrícula universitária – entre 1980 e 1997, a Coréia teve um crescimento de 353% no número de universitários e a Turquia, de 320% -, mas, antes de partir para um investimento mais expressivo na educação superior, o Brasil precisa estar focado nas suas necessidades mais urgentes.

Primeiro, será preciso dar prioridade ao ensino básico. Embora tenha repercutido positivamente a iniciativa do governo em investir na expansão das vagas nas universidades públicas, um cálculo simples revela o impacto dessa medida para a educação, no sentido mais amplo. Se cada estudante universitário custa para o país cerca de dez vezes mais que um aluno do ensino fundamental, como verificou estudo da Ocde, para cada nova vaga criada na universidade, dez crianças e adolescentes perderiam a oportunidade de ter acesso à escola. O exemplo é ilustrativo, mas não restam dúvidas queessa desproporção atinge, seriamente, a qualidade da educação básica.

Se o governo já encontrou uma boa fórmula para estimular o crescimento do acesso ao ensino superior, através do Programa Universidade para Todos, Prouni, sem a necessidade de empregar maiores volumes de recursos que poderiam estar sendo aplicados no ensino básico, porque não recorrer a ela? Pelo menos por enquanto, investir no financiamento para estudantes sem condições de pagar por um curso em instituição privada de ensino superior – como ocorre no Prouni – mostra-se como o caminho mais viável. Desconsiderar essa e outras alternativas semelhantes é sujeitar-se ao risco de perpetuar no país a desigualdade de oportunidades, com poucos abastados tendo acesso à universidade pública e uma multidão de crianças e adolescentes excluída do direito à educação básica.